segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Critérios editoriais são como os chapéus...




Ontem, entre as dores de garganta e as insónias provocadas pelo erro crasso de tomar um café quase às 23h, dei por mim a rever algumas da notícias que marcaram a semana passada, e deparei-me com uma situação surreal.

Após uma cerimónia com a presença de Passos Coelho, estava a decorrer um directo para várias estações de televisão, em que este responde às perguntas dos jornalistas:

Perguntas sobre as obras de Miró - PM responde

Perguntas sobre números do Emprego - PM responde

Ainda em directo, o PM pede aos jornalistas para poder comentar o evento em que estava a participar, afirmando a relevância de uma Agenda para a Criança “que trouxesse não apenas uma reavaliação de toda a área legislativa que está envolvida na protecção e direitos da criança, mas também que pudesse trazer dados novos sobre a adopção das crianças em Portugal”.
Mas já não conseguiu dizer nada para as televisões sobre este assunto, pois as transmissões foram interrompidas, continuando os telejornais com a sua agenda.
Sinceramente, posso até perceber que os jornalistas desrespeitem um Primeiro-Ministro em Portugal, porque desde 2011 que isso se tornou um hábito (com o querido Sócrates, essas ousadias eram resolvidas com processos, pressões de ministros sobre jornalistas, e até ameaças de corte de financiamento da banca).

Mas não consigo perceber o critério editorial.

A única conclusão é que as duas Comissões Intergovernamentais , que começaram a trabalhar para reforçar os mecanismos de protecção relativamente aos grupos de risco, as crianças naquele caso, "mas também relativamente aos idosos e aos deficientes, reformas que também serão feitas no futuro, em colaboração  com os IPSS", não têm interesse nenhum.

Não interessam as medidas de apoio às crianças em situação de risco, a reforma das Comissões de Protecção de Crianças e Jovens (CPCJ), que são o principal órgão de análise de situações em que as crianças correm perigo, de abandono, maus tratos, abusos sexuais e até ameaças de morte.

Não interessa o trabalho meritório de homens e mulheres nas CPCJ, que acompanham diariamente os pesadelos que são a vida de muitas crianças em Portugal, e cujas decisões representam, muitas vezes, a diferença entre a vida e a morte de uma criança em situação de risco.

Não interessa que o Governo tenha decidido alterar a legislação para fazer face a novas problemáticas e fenómenos perigosos, para adaptar os mecanismos destas entidades às novas realidades que têm de enfrentar, neste combate sem margem para erros.

Se calhar, só interessava ouvir o Primeiro Ministro de Portugal, sobre esta matéria, se tivesse morrido alguma criança recentemente, e fosse notícia crucificar o Governo, e estas entidades, por "nada terem feito" para impedir essa tragédia.

Critérios editoriais, são como os chapéus, cada um tem o seu, mas alguns metem mesmo nojo.