quinta-feira, 10 de setembro de 2015

A política não é um jogo de soma zero.

Na atividade política é fundamental ter uma perspectiva de vencedor mas sem que se destrua o adversário ao ponto deste sair de forma dolorosa do “campo de batalha”. A “real politic” não é um jogo de soma zero e por isso é importante que se siga a regra de ouro de negociação que afirma que a melhor disputa é aquela em que todas as partes ficam com a sensação de vitória (conselho sábio do Prof. João Gomes que leccionava a cadeira de negociação no MBA de Liderança, na Universidade Autónoma de Lisboa).

Maquiavel - considerado por muitos o Pai da Ciência Política - defendia que em vez de tentar derrotar um adversário sem um objetivo claro, será bem melhor gastar esse tempo e energia para conseguir o que se deseja. Esta será a opção mais sábia, mas nem sempre a razão, defendida por Maquiavel, prevalece sobre a emoção e, usando uma analogia com a música de António Variações, quando a emoção vence “O corpo é que paga”. O objetivo, neste caso, deve ser seguir a razão, naturalmente.

Mas imaginemos que estamos perante um dos piores cenários na atividade política onde somos apanhados entre duas partes em conflito sem que, na génese, o conflito seja nosso ou sem que possamos ter a garantia de uma conclusão com um resultado win-win, uma vez que não controlamos a iniciativa.

Para muitos atores políticos esta situação resolve-se dizendo a ambas as partes (sempre de forma isolada) aquilo que pretendem ouvir, favorecendo uma postura de falsa lealdade que é quase sempre exposta a longo prazo e que acabará por ter, como resultado final, a perca de confiança de ambas as partes no indivíduo. Muitos dos dirigentes partidários que mais tempo se perpetuam no poder adoptam esta postura que Adam Grant, autor do livro “Dar e Receber”, caracteriza como a postura de “tomador” (apostam sempre no resultado win-lose). É perverso mas é assim.

No entanto para outros (minoritários), o cenário involuntário de aparecer no meio de um conflito que não é seu, revela a necessidade de fazer uma escolha firme entre as partes, conseguindo a perspectiva de ganho sem grandes danos colaterais, e tal como Sun Tzu, autor do livro “Arte da Guerra”, defendia devemos apostar na ideia de que “É mais importante ser mais inteligente do que o adversário do que mais poderoso”. Desta forma é possível garantir a sua escolha e com o tempo conseguir restabelecer a confiança na parte preterida inicialmente uma vez que, apesar de preterida, essa parte vai valorizar a lealdade e coerência das escolhas e a prevalência da inteligência à força.

Há porém outras vezes em que escolher uma das partes ou agradar a ambas não é possível e aí haverá um afastamento óbvio e uma saída do conflito revelando um cenário onde a perspectiva win-win não é clara no imediato e tendo assim clivagem com ambas as partes. Relembro aqui a disputa interna da liderança do PSD onde Pedro Passos Coelho e Paulo Rangel disputavam a liderança tendo José Pedro Aguiar Branco aparecido como uma terceira via sem grande hipótese. Aguiar Branco é aqui a imagem do exemplo que refiro, ou seja apesar das clivagens criadas durante a disputa eleitoral conseguiu deixar a expectativa de um cenário futuro positivo e de entendimentos, não alimentando assim represálias permanentes e fantasmas de conflito. Essa postura deu resultados e José Pedro Aguiar Branco é hoje Ministro de Pedro Passos Coelho.

Hoje defendo que ficar de fora da acção política, de forma total, não é uma estratégia eficaz para quem se move profissionalmente nesta área, pois enquanto a acção decorre à nossa volta seremos, inevitavelmente, afectados por ela. Ou seja é muito melhor ser um “player” competente, consciente e dedicado ao resultado positivo do que ser um espectador ou um peão no jogo por outros liderado, sem grande compromisso com o resultado.

O compromisso com a atividade política positiva que, apesar de promover disputas, pretende resultados positivos para ambas as partes dessa mesma disputa, favorece os atores políticos que não pretendam ser permanentemente usados por terceiros que vão enganado e manipulando sempre com a perspectiva win-lose, favorecendo as divisões para capitalizar. Passos Coelho foi o paradigma deste exemplo de compromisso ao não aceitar a demissão de Paulo Portas do Governo, obrigando assim o líder do CDS a um entendimento que acabou por ser positivo para ambos e principalmente para o projeto de Governo, garantindo a estabilidade e com isso um resultado win-win para as duas partes.


A chave é negociar consigo mesmo e definir os objetivos máximos, os médios e os mínimos a atingir para a conquista pretendida. Abaixo dos mínimos é o fim da negociação e entendendo nós os jogadores e as regras começaremos a jogar, de novo, com outros “players”, mas sempre de forma que consigamos manter a nossa postura negocial alinhada com os nossos valores e princípios pessoais e políticos. Sempre com a perspectiva win-win mas com o desprendimento de quem escolhe livremente.