quarta-feira, 30 de dezembro de 2015


A retórica habitual tem tratado o Daesh (ou autodenominado Estado Islâmico) como mais um movimento jihadista, como a al-Qaeda por exemplo, com a particularidade ser eventualmente apenas mais violento ou melhor “marketeer”. Ainda recentemente, Obama referiu-se ao Daesh como “a terrorist organization, pure and simple”.
Embora se perceba o propósito desta retórica (a desvalorização atenua a sua capacidade de galvanização e mobilização para a causa), a manutenção desta lógica no combate não será produtiva.
O Daesh utiliza efectivamente o terror como táctica mas não se estrutura como os demais grupos terroristas (com a al-Qaeda à cabeça). Desde logo, tem um efectivo na ordem das dezenas de milhares (estimam-se 30 mil combatentes), ultrapassando qualquer outra organização terrorista. Para além disto, dispõe ainda de um território demarcado, capacidade de autofinanciamento, controla linhas de comunicação e infra-estruturas, possui uma estrutura administrativa e mantém capacidades militares relevantes. Tem ainda objectivos bem mais pragmáticos que a al-Qaeda: enquanto esta aspira à globalização do islamismo e à derrota total dos infiéis, o Daesh contenta-se, para já, com o controlo de território onde possa implementar a sua interpretação da sharia.
Mas a característica mais distintiva neste contexto e que lhe confere um estatuto diferente dos grupos terroristas conhecidos será, porventura, a capacidade de enfrentar em combate directo forças militares convencionais e desenvolver operações de grande envergadura.
A configuração e funcionamento do Daesh estarão assim mais próximos de um estado rudimentar do que de um grupo terrorista sofisticado. E é precisamente por isto que as estratégias e tácticas contraterroristas e contrasubversivas não serão, per si, suficientes para erradicar esta ameaça.
A prova desta afirmação reside na recente conquista de Ramadi pela forças governamentais iraquianas e aproximação do exército curdo a Raqqa. Este avanço deve-se, nas palavras dos responsáveis militares pela operação, a uma alteração drástica na forma de combate, passando “das operações de contra-insurgência, que usaram durante anos contra os terroristas, para as tácticas de guerra convencional”.

De todas formas, as estratégias e tácticas anti-terroristas e contra-insurgentes não podem ser descuradas neste combate e terão que ser aliadas a medidas de desradicalização e relacionamento com comunidades locais, entre outras “soft measures”. Este regresso à guerra convencional só resultará no contexto da disputa territorial. Na conquista dos “hearts and minds”, a abordagem terá que ser necessariamente diferente.