quinta-feira, 17 de dezembro de 2015



Há por este País fora uma espécie de higienistas morais que, à força de uma legada superioridade moral, tentam subjugar tudo e todos à sua mundivisão, sobretudo no que respeita a tradições populares.
São sobretudo autodesignados intelectuais, urbano-depressivos que ficam maldispostos assim que passam o paralelo de Vila Franca rumo norte interior. É malta que pensa que as cebolas crescem nas árvores, que os frangos já nascem sem cabeça e que os coelhos são apenas animais de estimação.
Normalmente é rapaziada que o mais que merece da parte do País real é um olímpico desprezo e alguma condescendência pela ignorância disfarçada de intelectualidade.
Vem este intróito a propósito de uma das tradições mais marcantes do Interior do País, que já aqui referi anteriormente - o Madeiro de Natal - e que será, provavelmente, um dos poucos ritos ancestrais de passagem à idade adulta que ainda hoje permanece em boa parte do Interior raiano.
Em todo o Concelho de Penamacor orgulhamo-nos de manter viva esta tradição e de ostentarmos, ano após ano, o título de maior Madeiro do País. Nunca ninguém se preocupou connosco até o evento ganhar alguma notoriedade, fruto da aposta na sua valorização como elemento cultural distintivo.
Este ano, já merecemos a distinção de terem sido alegadamente apresentadas diversas queixas em diversas entidades (Quercus, SEPNA da GNR, etc.).
Não consta que nenhuma destas queixas tenha sido apresentada por alguém que resida no Concelho ou que tenha alguma remota ligação ancestral ao mesmo. Não consta sequer que os queixosos alguma vez tenham passado perto de Penamacor. Para estes “queixosos”, a opinião de quem lá vive não interessa para nada, o importante é garantir que todos alinham pela sua suposta superior cartilha moral.
A coberto do argumento de supostamente “proteger a natureza”, arrogam-se o direito de interferir no modus vivendi secular de um povo. Nem sequer param para reflectir e perceber que o próprio fenómeno é, em si mesmo, uma forma de limpar a floresta das árvores doentes, permitindo a sua regeneração.
Pode parecer surpreendente para alguns mas no Interior há décadas que existe “consciência ecológica”. Nos madeiros são utilizadas árvores secas ou doentes, não árvores saudáveis. São as consequências de ter que viver daquilo que a terra dá…
Bom, bom era que estes “cidadãos preocupados” dedicassem os seus esforços a combater a interioridade e a desertificação populacional e que, já agora, aproveitassem o abundante tempo livre. No próximo dia 23 passem por Penamacor e assistam ao vivo e a cores a mais uma edição da Vila Madeiro.
Garanto-vos que serão bem recebidos e passarão certamente a olhar para o fenómeno com outros olhos.



P.S. – O convite para o próximo dia 23 é, evidentemente, extensível a todos os escribas deste humilde estabelecimento e respetivos leitores.