sexta-feira, 22 de abril de 2016

A ingerência das mais altas figuras da Nação


Começo por dar quatro notas introdutórias para acompanharem aquele que julgo ser um raciocínio lógico.


A primeira nota é de que a Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública (IGCP), anunciou em Janeiro deste ano que o défice para 2016 será de 5,2 mil milhões de euros.

A segunda nota é de que o IGCP revela ainda que necessitará de 2,1 mil milhões de euros para financiar e recapitalizar empresas públicas.

A terceira nota é de que o Banco de Portugal também veio confirmar estes valores do défice com uma pequena variação, assumindo um valor de 5,3 mil milhões de euros.

A quarta nota é de que o valor das participações de Isabel dos Santos em empresas cotadas em Portugal, têm um valor que ronda os 3 mil milhões de euros. A esta cifra somam-se as posições no BIC e os investimentos pessoais da empresária no sector imobiliário em Portugal.

Fazendo uma análise comparativa dos valores do défice e dos valores das participações de Isabel dos Santos em empresas cotadas em Portugal, verificamos que a empresária Angolana representa 58% do valor de défice português previsto para 2016.

Se fizermos a mesma comparação dos valores das participações de Isabel dos Santos com o valor que o IGCP necessita para financiar e recapitalizar as empresas públicas, vemos que as participações de Isabel dos Santos chegavam para financiar as empresas públicas e ainda sobravam cerca de mil milhões de euros.

A forma como temos visto tratar na praça pública matérias tão delicadas como a da negociação do CaixaBank com a Santoro Finance (holding de Isabel dos Santos) para a aquisição das acções do BPI, tendo inclusive tido o Primeiro-ministro e o Presidente da República interferência numa fase inicial, revela inabilidade “negocial” e falta de prudência por parte das autoridades portuguesas.


Vimos com alguma perplexidade, o Presidente da República referir que combinou com o Primeiro-ministro, que aguardaria pelo acordo entre o CaixaBank e a Santoro Finance, para então promulgar o diploma que acaba com as regras de blindagem que permitiam a um accionista com cerca de 20% bloquear as decisões de um outro accionista, com mais de capital.

Em primeiro lugar as mais altas figuras da Nação não deveriam interferir em negócios privados, correndo o risco de a sua interferência poder ser vista como uma “ingerência”. Em segundo lugar nenhum investidor deve ter um tratamento de excepção seja ele Espanhol, Angolano ou de qualquer outra nacionalidade e neste caso em concreto foi dado um tratamento de excepção ao CaixaBank.

O CaixaBank entretanto lançou uma OPA voluntária ao BPI onde oferece 1,113 euros, avaliando o BPI em 1,6 mil milhões de euros. Recordo que Isabel dos Santos tem investido só em participações de empresas cotadas em Portugal 3 mil milhões de euros, ou seja, duas vezes mais a avaliação que o CaixaBank faz ao BPI.

Com esta lei aprovada pelo Governo de António Costa e promulgada por Marcelo Rebelo de Sousa, Isabel dos Santos vê a sua posição fragilizada, no entanto as consequências para Portugal podem ser maiores do que se imagina.

Isabel dos Santos, em Portugal, atua em setores estratégicos como a Banca (BPI, BIC e BCP), Energia (Efacec, Energia Amorim e Galp), Telecomunicações (ZOPT, Sonae e NOS) e ainda no setor Imobiliário. Mas além de actuar em setores estratégicos e por isso representar uma mais-valia (ou não) para a economia portuguesa, Isabel dos Santos representa ainda Angola e isso não é um pormenor.

Portugal tem hoje milhares de emigrantes e centenas de empresas com capital português a operar em Angola. O risco de retaliações é agora ainda mais provável e mesmo que se procure, por via da diplomacia, atenuar o que agora se fez, não me parece que se possa pedir a um Pai (José Eduardo dos Santos) que não proteja os interesses da filha (Isabel dos Santos).


A inabilidade e a ingerência das mais altas figuras da Nação pagam-se caro. Veremos se são sempre os mesmos a pagar…os Portugueses!

FONTE: Jornal OJE Digital, www.oje.pt, Publicado em 22/04/2016
LINK DA NOTÍCIA: http://www.oje.pt/ingerencia-das-altas-figuras-da-nacao/