terça-feira, 14 de março de 2017

Montepio, o último Banco do Povo


O Montepio Geral Associação Mutualista é uma instituição que agrega uma Caixa Económica, podendo assim apresentar-se como um Banco com produtos e benefícios especiais para os seus clientes/associados, produtos e benefícios esses com origem na Associação Mutualista e também na Caixa Económica. 

Aquilo que poderia (e deveria) ser o paradigma da atividade financeira – que associava a nobreza e os princípios do mutualismo à intervenção financeira – parece hoje ser um mau exemplo.

O Montepio Geral Associação Mutualista, fechou as contas de 2015 com capitais negativos superiores a 107 milhões de euros, segundo refere uma auditoria da KPMG. Desta forma, clarifica a KPMG, fica claro que o passivo é superior ao ativo, incluindo um resultado negativo, imputado aos mutualistas, de 251.445 milhares de euros.

Na qualidade de Associado e de cidadão fico preocupado. O Montepio Geral enfrenta hoje um cenário de falência técnica, tendo neste momento a necessidade urgente de uma injecção de fundos. 

São apontadas duas soluções de curto prazo para resolver o (grave) problema. A primeira solução é o recurso capital por via de um empréstimo. A segunda solução passa pela venda de activos que o Montepio (Associação e Caixa Económica) possui em carteira.

Mas apesar da preocupação que devemos ter com as poupanças das pessoas e a sua salvaguarda é também importante exigir explicações e responsabilidades aos supervisores. 

No caso da Caixa Económica o supervisor (Banco de Portugal) apresentou um relatório muito crítico da liderança e gestão da instituição, no entanto vem tarde e talvez venhamos a encontrar sinais de pouca diligência na supervisão.

Quanto à Associação Mutualista a situação é bem mais preocupante e vergonhosa. Neste caso a Supervisão/Fiscalização é da responsabilidade da tutela, nomeadamente a Segurança Social (Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social) e aqui a negligência é muito mais preocupante. 

Sendo que as contas agora avaliadas dizem respeito ao ano de 2015, levantam-se várias questões a diferentes protagonistas:

O que fez o Ministro Pedro Mota Soares (PSD/CDS) para verificar a situação do Montepio enquanto responsável pela tutela? 

E o que fez o Ministro Vieira da Silva (PS) que sempre refere a necessidade de mais transparência e intervenção? 

O que fizeram estes responsáveis? Nada. Não fizeram nada!

Importa referir que ao nada fazerem permitiram que mais uma entidade do sistema financeiro português esteja hoje em posição frágil. Mas o Montepio não é só “mais uma” entidade. É a única Associação Mutualista com uma Caixa Económica em Portugal. É o último espécimen de um “Banco do Povo”. No Montepio são os Associados que intervêm e mandam(ou deveriam ser).

O Montepio Geral esteve exposto às mais variadas interferências políticas nos últimos 25 anos e para o confirmar basta verem quem compunha os órgãos sociais e respectivos Conselhos de Administração ao longo dos tempos. Esta é também uma das principais causas da atual situação - associado a má gestão -  e talvez por isso nenhum responsável político tenha feito o que deveria.

Compete agora a todos responsabilizar aqueles que fingem nada saber, desde os supervisores Banco de Portugal e Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, passando pelo Parlamento e comissões responsáveis, acabando na própria elite financeira. 

Todos, em certa medida, têm de ser responsabilizados com penalizações diferentes, mas efectivas.


Temos o dever de exigir responsabilidades e com isso ajudar a salvar o “último Banco do povo”, para bem do sistema bancário e principalmente para bem do Mutualismo.