quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Globalização 4.0...Delegar o Futuro



À medida que a revolução digital transforma as indústrias, e os desafios geopolíticos em curso se tornam mais complexos, parece que estamos à espera de um “Click” inevitável para incitar a maior onda de integração global desde a queda do muro de Berlim.

A "globalização 4.0" poderia, como as ondas precedentes da globalização, ter resultados mistos que vão desde o crescimento económico e redução da pobreza, por um lado, até às crises políticas e maior desigualdade de rendimentos, por outro. Hoje em dia, os resultados de uma integração global são particularmente incertos.

As divisões políticas estão hoje em máximos nunca vistos. A ameaça do terrorismo global continua. Instituições que unem países podem estar a desmoronar-se e temos como exemplo disso o Brexit. 

Para a geração dos “Millennials”, as oportunidades económicas parecem incertas. Esta geração que nasceu nos anos 80 acredita que talvez não tenha as habilidades necessárias para os empregos do futuro e vê uma série de problemas no horizonte. Aliás esta geração acredita que se não existir uma preparação focada na "Globalização 4.0", corre-se o risco de vermos esses problemas do presente agravarem-se.

Sendo eu da geração de 70, acredito no poder transformador e positivo daquilo a que chamamos da “Globalização 4.0”. No entanto isto só poderá acontecer se a minha geração e as anteriores - que ainda dominam o status quo - permitirem que os “Millennials” possam moldar essa globalização em termos de equidade, igualdade e sustentabilidade.

De acordo com uma pesquisa de 2017 da Global Shapers Community, 51% das pessoas com menos de 30 anos acreditam que a igualdade de acesso às oportunidades, para todos, é a coisa mais importante para uma sociedade livre. Chegam mesmo a considerar que é mais importante que a segurança no emprego.Temos de dar importância a esta informação.

A última onda de globalização na década de 1990 tirou alguns países da pobreza e isso é um facto. No entanto, a desigualdade de rendimentos aumentou nesses mesmos países e também nas grandes economias como a dos EUA e da China. Outros países com mão-de-obra barata procuram agora antecipar os benefícios da próxima onda de globalização, mas existe o risco de se estabelecer uma base que impulsione a desigualdade entre gerações em vez de promover a equidade.

Portanto para que se possa ter uma “Globalização 4.0” de sucesso, é fundamental termos um crescimento inclusivo e equitativo entre e dentro dos países. Isto pode parecer uma tarefa difícil, no entanto é possível se houver uma colaboração inter-geracional.

Para prepararmos o amanhã temos de concentrar esforços em algumas prioridades práticas. Garantir o sucesso não é fácil mas podemos definir 5 prioridades para ajudar a atingir o objectivo da “Globalização 4.0”:

1. Investir no fortalecimento das economias locais e regionais:

Maior integração global não significa que apenas as cidades globais saiam beneficiadas. Devemos construir pró-ativamente sistemas locais e regionais resilientes que possam participar na próxima onda de globalização, garantindo que as regiões tenham a combinação certa de educação, emprego e infraestrutura para estimular a economia local e regional, criando e mantendo os empregos.

2. Inovar nas instituições de educação e combater a ausência de formação, estimulando, em paralelo, as habilidades do individuo:

Em 2022, pelo menos 54% dos trabalhadores em todo o mundo precisarão de mais e mais habilidades, segundo dados do Fórum Económico Mundial. Não precisamos apenas de apoiar as pessoas na obtenção do treino e formação necessários para garantir os seus empregos nos próximos cinco anos, mas precisamos sim, de preparar jovens estudantes com as habilidades para se adaptarem aos tipos de trabalho de que teremos necessidade nos próximos 20 anos.

3. Concentrar apoios às populações mais vulneráveis:

Os efeitos negativos da globalização terão um impacto desproporcional em algumas populações. As instituições globais, regionais e locais precisam de promover estratégias universais e direcionadas para melhorar os resultados, de forma transversal, privilegiando as populações mais vulneráveis de forma a reduzir as clivagens existentes.

4. Promover políticas para travar as mudanças climáticas galopantes:

As mudanças climáticas não foram tão iminentes durante as ondas precedentes da globalização. No entanto, no futuro, vão ter um impacto desproporcional em regiões e populações vulneráveis. Os desafios da “Globalização 4.0” serão agravados se os recursos que poderiam ser destinados ao fortalecimento das economias locais e da educação tiverem que ser desviados para mitigar os custos da mudança climática. Quase 50% das pessoas com menos de 30 anos acreditam que a mudança climática é a questão global mais urgente. Há que dar atenção a esta crença e garantir que se lideram políticas com preocupações ambientais de base.

5. Construir e reforçar um movimento transversal, focado na equidade:

O avanço das prioridades para o sucesso da nova vaga de globalização e a criação de maior equidade exigirão um movimento global mais coordenado do que existe hoje. Hoje, para além dos estados e das entidades públicas, muitas empresas, ONGs, grupos de pressão, académicos e até indivíduos têm um alcance global sem precedentes e capacidade de influenciar resultados equitativos. A geração dos “Millennials”, provavelmente, recompensará as empresas que participam desse movimento capaz de influenciar o futuro, preferindo trabalhar e comprar em empresas que estejam a gerar bem social ou que estejam a trabalhar para um futuro que garanta isso mesmo.

O alerta global deve ser dado aos países que não atuam nas prioridades dum “Globalização 4.0”. Estes países correm o risco de perder a próxima onda de globalização e ficar definitivamente para trás. Acredito que para além da minha geração, a geração dos “Millennials” está pronta para liderar esta revolução silenciosa que tem na sua génese o objetivo do crescimento equitativo. 

Mesmo que pareça uma utopia para muitos, é claro para outros tantos que o iminente "Click" que dá início à “Globalização 4.0” será o momento decisivo da nossa geração. Delegando garantimos o futuro dos nossos filhos e deixamos nas mãos da geração seguinte um futuro com bases ainda mais sólidas e sustentáveis que a da nossa fantástica geração dos 70.


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